0 X 0 no campo. Derrota na arquibancada.

Poucas coisas são mais prazerosas do que você acordar num domingo de clássico. Bem poucas mesmo. Para quem é apaixonado por futebol, este é o ponto máximo.

Você já acorda diferente, inquieto. Avisa seus familiares que o almoço terá que ser mais cedo. Abre a gaveta e escolhe aquela camisa da sorte. Coloca uma bermuda e um tênis velho, pois o jogo merece total cuidado, e come rapidamente aquela macarronada, sem perceber sequer o verdadeiro gosto da comida.

Encontra mais dois ou três amigos, param em dois ou três postos para comprar cerveja, e chegam com certa antecedência ao Morumbi. Atento com sua camisa durante todo o trajeto, sente-se seguro ao chegar no estádio e encontrar seu batalhão.

Ao passar pela Praça Roberto Gomes Pedrosa, tempos atrás, a divisão de torcidas trazia à tona um sentimento único do significado de um clássico. Gritos daqui, resposta de lá. Provocação daqui, revide de lá. Quem viveu isso, sabe como era diferente. O clima de tensão no ar. Tanto fora quanto dentro do estádio. E como isso era demais!

Hoje em dia, com o estádio praticamente nosso devido à nova formatação de cota de ingressos para torcida visitante, a torcida mandante se torna muito maior. Por consequência, aqueles que são minoria precisam de uma atenção redobrada ao chegar no território inimigo. Nada, porém, capaz de impedir o ímpeto dos visitantes. Sim, ser a minoria visitante em um estádio é muito legal. Ainda mais se seu time sair como vencedor.

Tudo isso é parte da magia do futebol brasileiro. Magia esta que nos torna o país do futebol.

Mas, quando as notícias que se seguem ao clássico, ao invés de bolas na trave, gols e lances polêmicos, relatam uma emboscada e mais uma morte de torcedor, quem se sente derrotado é aquele entusiasta da arquibancada. Aquele que citei, como eu, você, se preparando para um domingo de clássico. Ele poderia ter sido a vítima da vez.

Entretanto, costumo dizer que as coisas só acontecem com quem está no meio de confusões ou de pessoas que as buscam. Depois do ocorrido, toda vítima vira santo.

Sem hipocrisia ou demagogia, todos os frequentadores de estádio sabem que emboscadas ou encontros marcados como este ocorrem periodicamente em dias de jogos pelo país. Aí, então, a imprensa de sofá já diz prontamente que ´devem-se acabar as torcidas organizadas´. Aí, eu digo: Não! Desta forma, o problema será apenas maquiado em sua ponta, e não em sua raiz. Desta forma, quem perde é o futebol, sem faixas, baterias, camisas, bandeiras e cantos criados e entoados pelas torcidas organizadas.

Como em todas as camadas da sociedade, as torcidas organizadas possuem muitos maus elementos. Assim como na Câmara, no Senado, no bar, na mídia. Mas tem ali, também, torcedor. Eu, inclusive, possuo fardamentos e já fui apreciador de torcida organizada. Não, eu não sou marginal.

O problema, então, não está exclusivamente nas torcidas. É algo muito maior. É na sociedade. É na educação. Aqueles caras que fazem emboscadas são os mesmos que roubam seu carro, sequestram seu tio, brigam no trânsito, levam seu celular.

É que esses caras também gostam de futebol, e por vezes vestem e se escondem atrás de camisas de organizadas.

 

 

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