17 DE DEZEMBRO ETERNO

Eu estava bem gripado e caso o Internacional fosse campeão, eu estaria fora da festa assim como um jogador lesionado fora da decisão.

Naquele final de semana, estava sozinho em casa. Assisti um filme, outro filme, li um livro e o sono não vinha, não conseguia parar de pensar na final que seria em poucas horas.

Chequei pela milionésima vez o despertador: 7:30, ativado, tudo certo! Lembro que a última vez que olhei para o relógio, já era 5:15, depois disso apaguei.

Eu havia perdido o jogo! Não havia luz, o relógio não havia despertado e não tinha como ligar o rádio nem a TV para saber o resultado da partida.

Saí para rua enlouquecido, de cueca, com remela nos olhos, descalço e escabelado perguntando para as pessoas: “Quanto foi o jogo?” Mas ninguém respondia.

Passou um cara de bicicleta e gritou: 1 a 0! Perguntei “Pra quem?”, não respondeu.

Acordei suado! Olhei para o relógio: 7:29. Que alívio! Foi um sonho. O relógio despertou logo em seguida.

Liguei a TV e Galvão Bueno dizia a célebre frase “Bem amigos da Rede Globo”.

Fui ao banheiro e voltei em segundos. Não tomei café. Vesti minha camisa vermelha e comecei a roer as unhas, nervoso e com a cara fincada na TV.

Começou o jogo e lembro que pensei: “Os caras são os melhores do mundo, mas no futebol tudo pode acontecer. VAMO MEU INTER!!!”

Que time aquele do Barcelona! Victor Valdés, Zambrotta, Belletti, Puyol, Rafa Márquez, Van Bronckhorst, Thiago Motta, Xavi, Deco, Iniesta, Giuly, Ronaldinho, Gudjohnsen… só fera!

Porém, a marcação colorada estava “encaixada” e o Inter era um verdadeiro Gigante em campo! Os jogadores estavam muito focados, olhavam um no olho do outro e notava-se que eles realmente acreditavam na vitória. Não havia bola perdida! Eles se multiplicavam em campo orientados e liderados pelo nosso eterno capitão Fernandão.

Aos poucos meu nervosismo foi dando lugar à confiança, o time passava isto para o torcedor. A cada chute de Ronaldinho ou de Deco ou de qualquer um que fosse, sabíamos que ali, embaixo das traves, havia um Gigante, uma parede, um líder chamado Clemer.

Aliás, naquele time haviam vários líderes e ao invés de um concorrer com o outro, uniram-se: Clemer, Ceará, Índio, Eller, Alex, Iarley, Fernandão, todos se ajudando e decididos a fazer aquele dia entrar para história.

Terminou o primeiro tempo e o sentimento era de confiança, de que dava sim para ganhar pois o Inter estava jogando de igual para igual.

Começou o segundo tempo e o tempo se arrastava, cada minuto pareciam cinco. O Barcelona voltou melhor, era mais incisivo, atacava mais. Defesa do Clemer, outra defesa, mais uma…

E assim seguiu o Colorado, valente, imponente, impenetrável… O jogo já se encaminhava para os 10 minutos finais e o Inter se mantia firme diante daquela verdadeira seleção mundial.

De repende, Fernandão se lesionou. Pensei: “Meu Deus do céu! E agora? Quem o Abel vai chamar?” Adriano Gabiru era o que o destino havia planejado.

Ao contrário da maioria dos colorados, que devem ter pensado na hora “PQP!”, lembro exatamente do que pensei e cheguei a dizer em voz alta: “Força Gabirú! Deus te abençoe!”

A partir daí, não há como descrever o que nós, colorados, sentimos naquele 17 de dezembro. Todo colorado certamente lembra de pelo menos uma destas narrações:

Galvão Bueno – Rede Globo: “O Inter vai pro ataque, o Inter se manda! Olha o Iarley, vamo nessa, olha a chance, abriu pela direita, OLHA O GOL, OLHA O GOL, BATEU, OLHA O GOL, OLHA O GOL, OLHA O GOL, OLHA O GOL, OLHA O GOL! GOOOOOOOLLLLLLL!!! ÉÉÉÉÉÉÉ DO IIIIIIITEEEEEEERRR!!! Ele acabou de entrar, Adriano é o nome dele! Aos 36 do segundo tempo, no contra ataque que era como o jogo estava desenhado. Olha, se vier, dá metade da taça pro Iarley! Valente, forte, corajoso, olhou Luiz Adriano de um lado, meteu no outro, Adriano saiu, saiu Victor Valdez, deu um tapa na bola, saiu pro abraço, é o Colorado na frente! Uuum pro Inter, zero pro Barcelona!”

Pedro Ernesto Denardin – Rádio Gaúcha: “Ronaldinho faz a marcação à distância! Índio chuta de qualquer maneira para o meio do campo. De cabeça torneou Adriano Gabirú, tocou pra Luiz Adriano pro Iarley, olha o gol do Inter pintando! Luiz Adriano tá livre, lá vai Iarley, tocou no Gabirú, vai marcar o gol atirou é GOOOLLL. GOOOOOOOLLLLLLLLL! GOL DO INTERNACIONAL!!! O INTER VAI SER CAMPEÃO DO MUNDO!!! Foi a 36 minutos, um tabelamento espetacular! Iarley mete no Gabirú, criticado, odiado pelo torcedor do Inter, reverte! Ele é o teu amor, torcedor colorado, ele é o teu amor! São 10 horas da manhã no Brasil, o dia, 17 de dezembro de 2006! Prepare a festa torcedor! O Inter vai ser Campeão do Mundo! O Inter vai cortar os cabelos do Ronaldinho, os cabelos do Puyol, vai rasgar a camisa do Barcelona, o Inter vai ganhar o mundo! O famoso, rico, milionário e festejado Barcelona está sendo inapelavelmente abatido pelo Internacional! Gabirú, Gabirú é o nome do gol! O Inter vai ser Campeão do Mundo!”

Daniel Oliveira – Rádio Band: “Vai para o Adriano, escorou de cabeça Luiz Adriano para o Iarley, dois contra um, alguém tem que chegar! Iarley passou pelo Puyol! Olha o Internacional chegando! Bola do Iarley, botou no meio, tá pintando o gol, vai ser Campeão do Mundo, é GOL! GOL! GOL! EU DISSE QUE ERA O JOGO DA TUA VIDA! EU DISSE QUE ERA O JOGO DA TUA VIDA, ADRIANO! GOOOOOOOLLLLLLL!!!!  Eu grito para o mundo ouvir: GOOOOOOOOOLLLLLLLLLLL!!!! Que Barcelona?! Que Ronaldinho?! Que melhor do mundo?! Que tradição?! Tu não não és um gigante, porque o Gigante é nascido em Porto Alegre, tem 97 anos e jamais, jamais perdeu a esperança! Ninguém tem o direito! Ninguém vai surgir no mundo para acabar com a esperança, para acabar com toda e qualquer fé! Ninguém surgiu até agora! Ninguém vai surgir! O Internacional faz 1 a 0 em cima do Barcelona! 37 minutos do segundo tempo! Um gol que ecoa o mundo, que pinta o planeta de vermelho! Um Inter! Zero Barcelona! Adriano Gabirú, eu disse que era o jogo da vida dele!”

Agora era só administrar, faltavam poucos minutos, mas administrar uma partida contra o poderoso Barcelona não era tarefa nada fácil.

Porém, o Inter tirou de letra, literalmente. Pedro Iarley foi um monstro e conseguiu manter a bola no ataque pela direita por um bom tempo. Driblava um, dois, sofria falta, chutava a bola nas pernas do adversário, a bola saia e continuava nossa!

Era questão de tempo, mas ainda teria aquela falta de Ronaldinho que teve a chance do jogo. Ronaldinho não aceitava perder para o Internacional e havia “pilhado” todos os jogadores do Barça antes do jogo explicando o que significava aquela partida para ele.

Concentradíssimo, Ronaldinho caprichou na cobrança, mas caprichou demais. Aquela bola que parecia que iria entrar, fez uma curva e foi para fora. Ufa! Nunca esquecerei do semblante do Ronaldinho rindo de nervoso com as mãos na cabeça e lambendo os lábios. Estava babando pelo gol kkkkk

Os jogadores do Barça estavam incrédulos, pasmos com as mãos na cintura. Ronaldinho estava pálido, perdeu o sorriso mantido durante todo o jogo e começou a tremer as pernas. Naquele instante começava a desmoronar o talento do melhor do mundo que nunca mais voltou a ser o mesmo depois que Ceará o anulou naquele jogo.

Quando o juiz apitou o final da partida, enquanto a TV mostrava a avenida Goethe “explodindo” completamente lotada naquela que foi a “Maior Goethe da História”, gritei na janela do quarto “EU SOU CAMPEÃO DO MUNDO!!!” enquanto um colorado desconhecido, na janela de um prédio da outra quadra, fazia sinal de positivo pra mim, tremulava o manto vermelho e apontava para o céu em gratidão.

Não fui para Goethe! Não tinha condições. Aquele foi um momento meu, mas único, indescritível, inesquecível. Só quem é colorado e viveu aquele dia, seja sozinho como eu, por ocasião do destino, ou com seus familiares e amigos, sabe da emoção que foi aquele 17 de dezembro.

Muito obrigado Clemer Gigante, Ceará, Indião (que se manteve em campo com a nariz quebrado), Fabiano Eller, Rubens Cardoso, Wellington Monteiro, Fabián Vargas, Alex, Adriano Gabirú, Capitão Fernandão Eterno, Alexandre Pato, Luiz Adriano, Iarley Mostro, Papai Abelão e todos àqueles que tornaram aquele dia inesquecível. O dia do grito de um povo aguerrido que jamais deixou de acreditar, eternizado em nossas mentes para todo o sempre! 17 de dezembro, o dia do torcedor colorado!

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