As memoráveis lágrimas do “ursinho olímpico” e a incrível pedagogia do esporte

As lágrimas daquele ursinho na cerimônia de encerramento dos Jogos Olímpicos de Moscou, em 1980, na Rússia, até hoje me inspiram…todos os dias tenho a doce intuição de uma nova espera, a aprazível sensação de outra esperança em rever e em sentir as representações daquele “amigo” desenhado pelo mosaico humano na arquibancada do antigo estádio Lênin…para o garoto de 6 anos, há época, Misha, como era chamado aquele símbolo da união dos povos pela prática esportiva, era a imagem lírica, lúdica, lapidar e poética do seu brinquedo, agora com vida e emoção…

…era como se as inebriantes flores brancas de sementes amarelas, como margaridas, nos braços do apaixonante “bichinho de pelúcia”, lhe espalhassem as mais incríveis fragrâncias dos deleites do jardim da infância…era como se os contos e os encantos de fadas lhe parecessem cada vez mais reais…cada lágrima que descia do olho esquerdo do “grandalhão” e divertido animalzinho tinha a genuinidade de um majestoso pingo de chuva…tinha o brilho daquela partícula de água que, misticamente, se funde à intensidade de um raio solar para, como uma dádiva, nos oferecer, a inigualável beleza de um arco-íris…

…como era saborosa aquela mistura de instantes com o despertar de novos instintos…as competições esportivas, as medalhas, os risos das vitórias e os lamentos das derrotas passaram a ter para o menino significados bem maiores, a partir da edulcorada face risonha daquele memorável “mimo” de criança…

…o jovem aprendiz ficaria ainda mais maravilhado com o colossal boneco de Misha que, no centro do estádio, passou a flutuar com um montão de balões coloridos amarrados às “peludas” orelhas…cores e corações palpitavam naquela fascinante e mágica pedagogia do esporte…o ursinho subia soberano, sutil e olimpiano, em movimentos que exprimiam uma beleza e uma leveza típicas de uma ginástica artística insuflada pela arte do russo ballet Bolshoi…mas para onde ele iria?…ora, para algum lugar no qual se firmaria como o épico epicentro das divinas lembranças e das mais dignas lições do desporto…pura epifania…

…os Jogos Olímpicos eram, então, também espaço para os bons e sábios brinquedos…o carinhoso, perspicaz e célebre ursinho transmitia ao rapazinho a mensagem de que os Jogos, principalmente os da vida, podem ser divertidos e deixarem saudades quando reproduzem a essência de prazeres aliados aos princípios da desportividade…ou seja, toda prova disputada tem sempre, antes de qualquer apito, a educativa prévia dos instigantes saberes “ganhar” e “perder”…cada passo de um atleta deixava no solo o selo de lendárias histórias de lutas e de míticos esforços pela remoção de barreiras…

…Ah, Misha, como seus traços permanecem nas tranças e traçados das asas da minha imaginação…suas melódicas expressões me ofereceram um mar de esperanças do esporte como forma de educar as pessoas…

…quatro anos mais tarde, os Jogos Olímpicos de Los Angeles, deixariam mais robustas algumas daquelas convicções em formação no menino, agora com 10 anos…o desempenho do brasileiro Joaquim Cruz na corrida dos 800 metros, no Coliseu Olímpico, narrado pelo incomparável Osmar Santos, foi algo capaz de mexer com a religiosidade do santuário de Olímpia…as passadas largas do esguio e esbelto atleta eram uma homenagem à honra de Zeus…

…naquele 6 de agosto de 1984, aquele personagem lendário, de 21 anos, de Taguatinga, Distrito Federal, “voava” na pista com a energia, o impulso e a vitalidade do super herói que enfeitava a cabeceira da cama e as joviais fantasias da criança…à percepção do fascinado pequenino torcedor, Joaquim Cruz, com o short e a camiseta azuis, afigurava-se como o Super-Homem e seus intergalácticos poderes…”passadas elegantes, passadas de esperança, capricha garoto…é a história do menino pobre que se supera…passos decididos!”…a exclamada e mágica narrativa de Osmar Santos arrancava dos olhos do guri, como numa magnética viagem no tempo, aquelas emblemáticas lágrimas de Misha…

…a primeira medalha de ouro do Brasil em provas de pista de corrida teve o arrebatador e divino sabor da superação…como são agradáveis os gostos oriundos dos heroicos gestos…

…daquelas “titânicas” disputas, ainda ficaria na afável consciência do “moleque” a impressionante e comovente cena da suíça Gabrielle Andersen numa luta ontológica para vencer os limites do próprio corpo e conseguir cruzar a linha de chegada da maratona feminina…era como se ela tivesse a absoluta convicção de que, há poucos metros, a sua frente, estava o Monte Olimpo, onde lhe aguardavam, de braços abertos com a medalha nas mãos, Afrodite, a deusa grega do Amor, e Apolo, o corredor considerado o primeiro vencedor dos Jogos Olímpicos…o 37º sétimo lugar foi, a bem da verdade e da magia do desporto, a mais consagrada das vitórias…

…com o passar dos anos e de muitos outros Jogos, tantos múltiplos momentos acompanharam essa minha instrutiva e sublime relação com o esporte…o garoto virou o homem que tornou-se o pai do Marcelo…o mesmo M de Misha, a mesma métrica de sentimentos e de conhecimentos…juntos, hoje, revemos essas histórias e estamos permanentemente prontos para experienciarmos novas corridas, jogadas, braçadas, saltos, arremessos, golpes justos, passadas, passes e regras de paz e de amizade…

…abraçados pelo pranto da derrota ou pelo primor da conquista, compartilhamos as largadas, os percursos, os percalços e as premiações que envolvem as longas e lindas jornadas da vida e do esporte…do nosso suor, parecem sair também, continuamente, as fiéis gotas do choro do admirado ursinho de Moscou…elas têm o dom de manter acesas no âmago das nossas almas a chama da Lanterna Olímpica, agora, em 2016, no Brasil…

…meu filho, como é sagrado o fogo que não nos fere quando ardente na pira…pelo contrário, nos encoraja com suas inestimáveis formas de luz…veja bem, meu jovem, como os contornos do rosto de Misha nos convidam a interpretar os sentidos dos aros olímpicos e de seus ares continentais…aquelas “fofuchas” bochechas redondas, os circulares, harmônicos e sonoros orelhões, os olhos feito argolas olímpicas que penduram as lágrimas e nos convidam aos sonhos, o nariz cintilante como uma valiosa aliança do matrimônio esportivo, a boca cujos lábios se movimentam à semelhança de uma bola universal, e a resplandecente cabeça com a singular capacidade de rotação de um globo terrestre…

…assim, seguimos convencidos dos aprendizados com as empolgantes crônicas dos didáticos e pedagógicos fundamentos dos Jogos Olímpicos e das outras tantas espetaculares dimensões do desporto…assim, seguimos acreditando que a imagem de Misha está, a todo momento, ali, na cabeceira das nossas camas, enfeitando as nossas inspirações…

Imagem: radios.ebc.com.br

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