Errei tanto na vida que xinguei Ronaldinho e aplaudi Frederico

Não sou o cara que se arrepende muito facilmente de nada não. Mas dentre vários erros cometidos na vida, alguns podem entrar na categoria ‘imperdoáveis’. Sim, eu me culpo por ter xingado tanto naquele 04 de junho de 2012. Como assim, Ronaldinho Gaúcho está na Cidade do Galo? Logo você, Kalil? De dentro da mesma lan house que estou agora, escrevendo este texto, disparei dezenas de mensagens para amigos alvinegros e até para uns Marias: ‘o turco pirou de vez’, ‘estou de férias do futebol’, ‘Ronaldinho, não!’. Esbravejei e pensei mesmo em dar um tempo nessa loucura que toma conta da gente quando a bola rola.

Ainda bem que esse é, dentre todos os esportes, o que mais se aproxima da vida real. Aliás, nunca será só um esporte esse trem de doido que aprendemos a amar desde criança. Só quem é mesmo fanático por futebol entende o que é queimar uma camisa do time do coração no domingo e estar no estádio três dias depois gritando feito louco. Se já fiz isso? Fiz muito mais. Só não dá pra contar aqui. Que me perdoem os vizinhos do Edifício Izaura Santos, no Barro Preto, em BH. Era um adolescente àquela época e achava mesmo que tudo o que era feito por amor fazia sentido.

Fato é que dois dias depois de achincalhar o Gaúcho e o turco, lá estava eu, no Palácio do Horto, para assistir Galo x Bahia pelo Brasileirão de 2012. Contratado dia 04, era quase impossível que Ronaldinho estreasse no dia 06. Mas o atleticano duvida sempre do impossível e vazou a informação de que ele iria pro jogo. Eu fui. De Barbacena pra BH só pra ver o cara que eu não queria ver no meu Galo. Ah, o futebol… Tão incoerente quanto a vida. Não coloquei a máscara dele não (quase todos compraram fora do estádio), mas sim, eu estava ali para ver o Galo. Como sempre fiz. Só que desta vez estava ali para ver o Galo do Ronaldinho, é claro. Ele não jogou, não ganhamos do Bahia, mas a verdade é que a partir dali eu era fã do cara e para a nossa alegria o pão passaria a cair com a manteiga virada pra cima. Inevitável. Justo com quem sempre acreditou, mesmo com tantos motivos para duvidar.

Na estreia diante do Palmeiras, abandonei um churrasco em um sítio para assistir em um bar de Barbacena. Vitória em São Paulo e a certeza de que dali pra frente, tudo seria diferente. Teríamos que aprender a ser gente. O nosso orgulho não valia nada. Mesmo. Afinal de contas, Gaúcho, se você achava que ia fazer da Massa o que tinha feito com todo mundo que te amava, era bom saber que pra ficar com a gente, teria que mudar. E ele mudou. Pelo Galo, por descobrir o quanto é bom ser alvinegro. Ele teve a vida inteira pra viver e saber o que é bom e o que é ruim. Sim, Ronaldinho hoje é mais Mineiro do que Gaúcho. Seu coração pulsa em preto e branco e ele mesmo gritou para o mundo inteiro ouvir que lá também é Galo, porra!

Vieram os títulos. Pintamos a América de preto e branco, vencemos a Recopa na sua despedida e o resultado daquela época inesquecível foi um ‘baile de Galo’ na final da Copa do Brasil de 2014 diante do cliente cinco estrelas. Afinal de contas, em decisão de título nacional estava valendo, não é mesmo? Quarta-feira teria mais, sim. Pra tremedeira geral e no salão de festas da Pampulha, onde nós vimos Tardelli silenciar a histeria. Aliás, nós, atleticanos, vimos tanta coisa que devemos um eterno obrigado a Deus, o maior de todos os alvinegros. Vimos Riascos ir pra bola sim, mas vimos mais. Vimos uma granada na torcida bestial, um gol antológico no Horto diante do Fábio – que dessa vez estava de frente, um show na Libertadores de 2013. Vimos Ronaldinho no Galo! Quer mais? Então teve mais: um chapéu do Danilinho, o inesquecível gol do Vanderlei (teve gente que estava de costas e não viu), o escorregão bonito por natureza do paraguaio amigo quando o impossível veio nos rondar de novo, um ‘classificadaço’ ir pro espaço e silenciar em ‘carioquês’ quem falou demais antes da hora, um gol do Edcarlos acabar com a dancinha do Mano, pobre mano. Vimos e queremos ver mais! Ainda que sem Ronaldinho.

Obrigado, Gaúcho! Aqui em Minas somos gratos a você. Abraçamos a dona Miguelina, ainda que tenhamos xingado o filho dela um dia, junto do turco mais argentino do Brasil. É claro que você não é maior do que o Galo. Ninguém jamais será, mas certamente crescemos com você e o ajudamos a se tornar ainda maior vestindo o manto que transcende amor. Você, Ronaldinho, pode, como nós, puxar as barbas de Deus e dizer que foi feliz nessa vida. E perdão por ter sido tão radical naquele 04 de junho. Não era mais adolescente, é verdade, mas ainda achava que o amor era tudo na vida. E não há amor maior no mundo do que o que nós, atleticanos, temos pelo Galo. Você soube perdoar, nós aprendemos a aplaudi-lo. A vida é assim: tem contrapartida, ainda que não tenha sentido. No nosso calejado coração, sempre carregaremos lembranças maravilhosas de Dois Mil e Galo.

Preciso, antes de encerrar, dizer que xingar a vinda de Ronaldinho não foi meu único erro na vida. Não me perdoo também por até hoje não ter acertado as contas com os Wrights, Simons e Freitas da vida. Não entendo como não fui a Marrocos em 2013. Não acredito que cheguei a pedir desculpas para um tal de Frederico. Ah, o futebol… Mais incoerente, impossível. Ah, o Galo… Mais louco, impossível. Ah, o amor… Mais ingrato, impossível. E que role a bola em Varginha amanhã porque quando a gente cisma de acreditar, ninguém segura.

Foto – lance.com.br

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