Maracanã – Flamengo vs Corinthians – 2006

 

Um dos sonhos de qualquer garoto brasileiro é assistir um jogo no Maracanã e tremular uma bandeira.  Principalmente para um paulistano, elas são proibidas. Alias, nos estádios cariocas são permitidas cervejas e até vodka, que dão um gosto especial para um grande clássico.

A minha primeira ida ao Maior do mundo foi para ver um jogo contra o Flamengo, o clássico das multidões.

Comprei passagem para a caravana, o ônibus estava marcado para sair às 6 horas da manhã, mas às 20 horas do dia anterior, eu estava em uma estação do metro linha vermelha,  aguardando alguns amigos da Zona Leste, para irmos até Osasco, onde encontraríamos uma espécie de “aquecimento”, com churrasco e cerveja.  Uma ótima oportunidade para conhecer melhor os corinthianos que iriam ao jogo.

Após algumas conversas e cerveja, a Polícia Militar interrompeu a confraternização e acabou com a nossa festa.

“Senhor só estamos tomando uma gelada para ir para o jogo” – Disse um dos corinthianos.

O policial não cedeu e disse que havia muita reclamação, do barulho, por parte dos vizinhos.

Assim fomos obrigados a mudar de local e esperar o horário do ônibus, que só sairia às 6 horas.  O nosso era o um “busão” antigo dos anos 80, que ainda insistia em rodar, mesmo sem ter condições para isso.

O clima da viagem não poderia ser melhor, um dos corinthianos, o estava se despedindo, ele iria se mudar e essa seria a última caravana que ele faria. Para a despedida, não faltou cerveja, risadas e as tradicionais brigas da turma da frente x turma do fundão.

Na última parada, no Habbib’s, na entrada do Rio de Janeiro, fomos recebidos por alguns integrantes flamenguistas, não sei como eles souberam da chegada dos ônibus e nem o que eles queriam. Estavam em dois carros e quando percebi, estavam fazendo a nossa escolta até porta do Estádio Mario Filho.

A sensação era indescritível, subindo aquela tradicional rampa de acesso ao anel superior. Na cabeça passava um filme em preto e branco, com as imagens dos anos 50, 60 e 70, do povão se aglomerando para entrar. Quando estava a um passo, parecia que uma luz de dentro ia até a rampa e iluminava todos, a magia era incrível, as imensas arquibancadas que outrora comportaram mais de 200 mil pessoas, estavam a meus pés. Eu não sabia se sorria, se pulava ou cantava, optei por pegar logo a câmera e registrar cada momento.

Esse foi um dos dias mais quentes da história do Maracanã. Os termômetros do estádio apontavam 48ºC, no momento inicial da partida. Acredito que a sensação térmica de quem estava na arquibancada, lotada, era muito maior.  A todo instante via-se torcedores comprando água, até policiais queriam água para se refrescar inclusive um deles me pediu um gole da minha – “Paulista, me deixa beber essa água, esta foda trabalhar com coturno nesse calor!” – Se queixou um policial.

O ápice do jogo foi quando, finalmente, consegui pegar a bandeira de bambu. No começo foi difícil coordenar os movimentos, ela é mais pesada do que eu imaginava, mas logo a tremulava, enquanto, olhava para o lado e via dezenas de bandeiras que davam ritmo ao espetáculo. Ah esqueci de mencionar, o Corinthians perdia por 3×0 e mesmo assim a festa era imensa. A massa flamenguista assistia em silêncio o nosso espetáculo e no final da partida, fomos tão aplaudidos quanto os jogadores que tinham goleado.

Na saída do estádio, uma pequena confusão com a Polícia, que passou a distribuir gratuitamente “borrachada” e gás de pimenta para todos os lados. Após o tumultuo fui informado que era normal e após algumas outras caravanas, eu comprovei que infelizmente era comum.

Na saída do Rio de Janeiro, sentado no banco do “busão”, aquela sensação de dever cumprido, de ter conhecido o Maracanã e tremulado a bandeira foram interrompidos por um barulho enorme, me assustei e olhei que algumas janelas estavam estilhaçadas no chão, eu não sabia bem o que havia acontecido, se era pedrado ou outra coisa. Logo confirmaram que nosso ônibus foi alvejado por três tiros, às cortinas foram fechadas e o pessoal sentou no chão para prosseguir a viagem na estrada, até o final da Serra das Araras, trecho considerado como o mais perigoso.

“Caralho o que houve?” – perguntei.

“É tiro porra! Estão atirando!” – Respondeu um corinthiano que sentava ao meu lado.

“Então fecha as cortinas, apaga as luzes, vamos embora, rápido!” – Disse uma voz no fundo do “busão”, não sei quem era.  Felizmente não foi preciso chegar a esse ponto de revidar.

A insegurança e adrenalina dominavam minha mente e o desejo de chegar vivo em casa era cada vez maior, a cada km percorrido era um alívio, mesmo após passarmos pela Serra e todos voltarem para suas poltronas, a preocupação existia, ao poucos, com o passar da viagem, a adrenalina foi baixado e consegui dormir o resto do percurso.

Chegamos a São Paulo, por volta das 2 horas da manha, o caminho até em casa era longo e no dia seguinte eu teria que levantar às 7 horas para trabalhar. A felicidade a vontade de fazer outra caravana eram enormes, não tinha como não pensar nisso. Só bastava escolher o próximo destino.

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