À Massa o que é da Massa

Confesso que minha maneira de ver o futebol vem mudando de uns tempos para cá. Depois da conquista da Libertadores, da Recopa e da Copa do Brasil, está tudo muito diferente. Não só pelos títulos em si, mas porque, do ano passado para cá, o coração atleticano começou a bater mais forte. E o mais engraçado é que não é só o do atleticano. De alguma forma, percebe-se que tem sido assim com quase todos os apaixonados por esse esporte.

São várias as manifestações de jornalistas de outros estados parabenizando o Galo por suas recentes conquistas. Mais do que isso: se deliciando com o espetáculo oferecido por esse Galo cada vez mais Doido. O Galo do Kalil, do Cuca, do Levir, do Tardelli, do Bernard, do Ronaldinho Gaúcho, do Dátolo, do Victor, do Léo Silva. O Galo do Luan, o mais maluquinho de todos os meninos alvinegros. O Galão da Massa. E essas conquistas são dela, por direito.

De repente, aquele clube que possui uma linda história regada a um amor incondicional e praticamente incompreensível, mas que sempre ficava no quase, começou a construir um outro tipo de desfecho para suas batalhas. É como se o script a que todos estávamos acostumados começasse a deixar de fazer sentido da noite pro dia e as frequentes eliminações e humilhações, em um estalo, sem explicação alguma, se transformassem em taças.

Difícil definir onde foi que o trem voltou para os trilhos. Mas arrisco a dizer que foi em 30 de maio de Dois Mil e Galo. Tão importante quanto o gol de Leo Silva no fim da partida decisiva contra o Olímpia, foi o momento em que o pé esquerdo do Victor resolveu entrar para a história deste clube alvinegro. Não foi ali que descobrimos que a melhor sigla para Clube Atlético Mineiro é AMOR. Isso nós aprendemos no berço. Mas foi ali que passamos a acreditar.

Ainda me lembro muito bem daquela noite. Eu estava em casa, de muletas e bota ortopédica, membros que adquiri após uma chata fratura no tálus. Éramos três naquele quarto: eu, minha mãe e minha irmã. Mas parecíamos milhões quando o árbitro, aos 47 minutos do segundo tempo, fez o que tinha de ser feito: assinalou pênalti de Leonardo Silva sobre o atacante do desconhecido Tijuana. Ali tudo começou.

Silêncio total. O único barulho que escutava naqueles minutos que viraram eternos eram os de lágrimas. Minhas e da minha irmã. Foi difícil responder a ela que tinha acabado. Que a Libertadores de 2013 tinha sido mais um lindo sonho. Mas só um sonho. Mas eu não podia mentir e quando ela perguntou: “E agora?” eu, monossilábico, respondi com os olhos e o restinho de voz que ainda me sobrava: acabou, esse é o Galo.

Antes do milagre de São Victor, porém, eu escutei minha mãe dizer: “fiquem tranquilos. Nesse gol a bola não entra, vocês vão ver. E podem parar de chorar”. Aquilo parecia pra mim apenas ilusão. De fato, havíamos contaminado nossa mãe, uma carioca que até então torcia pelo Corinthians. Mas ali isso mudou também.

Pois foi dela o primeiro grito quando Riascos partiu pra bola e….. Meu Deus!!!! Esse lance não se apaga da memória de nenhum atleticano. Já foi tatuado em diversas peles. Está tatuado no melhor espaço que o coração alvinegro que carrego no peito possui.

Depois disso, vieram outras provas de que acreditar valeria a pena e de que, enfim, as dívidas do passado seriam quitadas. Veio o Newell’s Old Boys, o apagão no Independência e o chute de Guilherme, seguido por mais pênaltis e mais milagres daquele goleiro que tem vocação para Deus.

A cada jogo daquela Libertadores, o sofrimento de décadas era transformado em poesia, até chegar a decisão contra os paraguaios do Olímpia, tricampeão continental.

Mais uma derrota fora de casa. Mais um milagre pela frente. A rasteira que Deus deu no atacante Ferreyra, já próximo dos 40 minutos do segundo tempo, era a confirmação de que o “Eu acredito”, mais do que imortalizado, seria recompensado. Ali, entre a sobriedade da apreensão e o delírio da emoção, eu olhei pro céu, em prantos, e acreditei, de fato.

Cercado por 60 mil atleticanos, eu lembrei daquele 30 de maio. Lembrei também do Criciúma, da Portuguesa, do Goiás, do Corinthians, do Palmeiras, do Flamengo, do São Paulo e do Rosário Central. Comecei a perceber que sim, para toda história tem que haver mais de um roteiro.

Vieram os pênaltis e a euforia pelo título. Choramos todos naquele estádio que tantas vezes, incrédulo, havia silenciado, mas que se transformara, a partir daquele instante, no maior reduto de milagres que já se viu. E, consequentemente, em um salão de festas. A história mudou. E nós fomos testemunhas disso.

Com novos personagens, mas com a mesma emoção, veio a Copa do Brasil. Um a um, vimos nossos algozes do passado ficarem pelo caminho. O Palmeiras de forma tranquila e sem sustos. Corinthians e Flamengo pareciam Newell’s e Olímpia. Inacreditável mesmo era imaginar que o coração pudesse bater com a mesma intensidade do ano passado.

Inacreditável mesmo foi ver que é possível. Que somos sofridos sim. Mas que o amor que carregamos por este clube uma hora seria recompensado. Naquele 4 x 1 contra o rubro-negro carioca, de novo no Mineirão, eu lembrei mais uma vez de Criciúma, Portuguesa e cia ltda. Na verdade, ali eu acho que comecei a esquecer desses times e dos árbitros que nos tiraram tantos títulos no passado.

Passou a importar menos que tenham nos levado essas conquistas. Chorei de novo, junto do Luan e de mais milhões de atleticanos naquele quarto gol. Fiquei paralisado por uns instantes e comemorei como nunca logo depois de descarregar o trauma da década de 80. Mas faltava o time da Enseada das Garças. A briga, agora, seria no terreiro de casa.

E o mais curioso é que foi exatamente na final, diante de nosso maior rival, que a coisa fluiu com mais tranquilidade. Foi fácil, extremamente fácil a decisão. Do primeiro ao último minuto deste duelo decisivo, todos sabiam que o Brasil se cobriria de preto e branco à meia-noite de 27 de novembro. Foi inquestionável. Será inesquecível.

A história mudou, embora o tratamento que continuamos recebendo dessa gente que treme seja o mesmo. Nem mesmo o mais inacreditável roteiro hollywoodiano foi capaz de baixar a bola dos que se acham superiores a tudo e a todos. Mas isso pouco importa. Sempre foi assim e sempre será.

A novidade fica por conta do teor de nosso choro. As lágrimas, que antes eram de dor, hoje são da mais profunda alegria que se pode imaginar. O mundo não fica mais colorido com a faixa no peito. Pelo contrário: é cada vez mais preto e branco. Obrigado, Galo. Eu jamais te abandonaria, ainda que o Olímpia chamasse Criciúma ou a final da Copa do Brasil tivesse sido contra o Goiás.

Em meio à comemoração, quero dedicar o último parágrafo desta coluna ao goleiro Fábio, da Enseada. Realmente, cada time tem a casa que merece. O salão de festas também. Aliás, deixo aqui a pergunta a você, mãos de alface. Onde você prefere: no Palácio do Horto ou no sítio da Pampulha? Pode escolher, afinal de contas o freguês sempre terá razão. Só não vire as costas para a realidade, meu caro. E lembre-se: o Leleu tem uma Copa Libertadores.

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