O feio que jogava bonito.

 

É estranho sentir saudosismo por algo que até pouco tempo fazia parte do seu dia a dia. Sei que a expressão é clichê, mas realmente o tempo voa!

E além de perceber isso através das minhas entradas e pelo tamanho dos meus filhos que a cada semestre me obrigam á comprar novos pares de sapatos, uma das coisas que mais me apego para medir a velocidade do tempo é o futebol.

É sério que o Messi já é trintão? O Mito virou técnico? Como assim a Copa no Brasil já foi? É sério que daquela Juve que eu sempre escolhia no PES de 2007 só sobrou o Buffon, e que Nedved, Del Piero, Trezeguet, Camoranesi, e Canavarro pararam de jogar?

Pois é! Inacreditável a velocidade deste tal tempo!

Minha indignação sobre o elo entre o tempo e o futebol tornou-se ainda maior quando numa recente resenha pós-pelada, recebi o desafio de escalar os “onze melhores que já vi jogar pelo São Paulo”, e quando citei o meu camisa nove, ouvi:

“França?! Quem é este? Achei que o seu nove seria o Luís Fabiano!”

– Questinou um colega no auge dos seus vinte anos.

Percebi então que França, um dos melhores atacantes da história do São Paulo havia se tornado passado. Numa pesquisa rápida vi que seu nome já ilustra a clássica sessão “Que Fim Levou” do Milton Neves e que talvez, para os nascidos pós 97, ele sequer tenha existido.

Inteligente, habilidoso, técnico, veloz e extremamente calmo dentro da área. França foi um atacante completo no que diz respeito á arte de fazer gols.

O que mais me chamava a atenção no jeito de França jogar eram seus trejeitos. A cada dominada de bola ou sacudida de corpo para insinuar um drible, ele aparentava ser meio desengonçado e até meio afoito com a bola. Pura ilusão. Tudo não passava de uma característica própria para deixar o domínio e o drible ainda mais perfeitos e bonitos.

Aliás, a combinação entre as palavras “França” e “beleza” só servia como citação ao país, pois a feiura sempre acompanhou França. Desde o nome original e extravagante – Françoaldo (!!!) – até os cabelos dignos de patrocínio das fabricantes de esponjas de aço.

Mas em compensação como era bonito vê-lo jogar!

Tenho certeza que os gols mais bonitos que já vi estando no Morumba foram dele. Como aquela cobertura matadora e humilhante no Marcos ou aquela entortada elástica no zagueirão Juan. França não escolhia vítimas ou adversários, seu negócio era bola na rede, não importava como e nem contra quem. E assim ele nos presenteou por seis anos com gols de bicicleta, cabeçadas, voleios, chutes de fora da área, arrancadas, entre tantos outros gols de estilos diferentes.

Foi desta forma que França conseguiu se destacar e ser lembrado numa época em que monstros sagrados como Ronaldo e Romário ainda atuavam. No Brasil sua concorrência por uma vaga na seleção era contra pesos pesadíssimos como Edmundo, Luizão, Edílson, Dodô, Viola e outros.

Mas pela seleção não teve a mesma sorte de alguns, e além das poucas oportunidades, acabou sofrendo uma grave lesão justamente em 2002. Um azar que não só o impediu de tentar lutar por uma vaga naquele grupo que viria ser campeão, mas também de talvez ter tido uma carreira de maior destaque.

Assim como em qualquer segmento da vida, não é apenas a competência que garante o sucesso no futebol. O carisma e a irreverência também abrem muitas portas.

França era de poucas palavras e nunca foi uma unanimidade popular.

Acabou tendo que cultivar seu pé de meia na Europa jogando pelo Bayer Leverkusen, e depois no Japão; país que além do sucesso em campo, lhe trouxe uma enorme identificação com a cultura á ponto de optar viver por lá até hoje, mesmo não jogando mais desde 2013.

Em todos os sites e páginas do Facebook de torcidas do São Paulo que acompanho, vejo que praticamente todos os tricolores tem um enorme carinho, respeito e gratidão pela figura de França. Ele não conquistou muitos títulos, verdade. Mas conquistou o feito pessoal de se tornar o quinto maior artilheiro da história do clube com 182 gols.

Em entrevistas, França revelou que tinha o desejo de voltar ao São Paulo para tentar conquistar outros títulos e tornar-se o maior artilheiro da história do clube. Infelizmente não aconteceu, mas seu carinho e devoção pelo clube ainda é percebido através de suas postagens sobre o time nas redes sociais.

O tempo, irrefreável, já o tornou um personagem do passado, mas tenho certeza de que por muitos e muitos anos, milhares de torcedores irão lembrar sempre com saudosismo daquele magrelo meio esquisito que tratava a bola como poucos.

E assim como sempre ouvi meu pai falar sobre Serginho Chulapa, o YouTube será meu aliado em apresentar ao meu filho os registros de Françoaldo Sena de Souza, o França.

O feio que jogava bonito.

Charge: Thiago Adonai

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