Preciso falar sobre Cristiano

Salve, pessoal!

OBSESSÃO (s.f.)
Ocupação constante, absorvente; idéia fixa.

HUMILDADE (s.f.)
Sentimento proveniente do conhecimento dos próprios limites; respeito

SOBERBA (s.f.)
Atitude de altivez, orgulho, arrogância

Por muito, muito tempo, eu defendi Messi sobre Cristiano.
Como defendo Beatles sobre os Stones.

Sempre disse que seria assim: se eu ganhasse no par ou ímpar da pelada e tivesse que escolher um dos dois, cravaria o portenho sem qualquer hesitação.
Porque o talento de Messi é algo nato, arraigado.
Ele é assim, genial, e pronto.
Parece não se esforçar muito para ser assim.

Cristiano não.
É fabricado.
Parece um robô; não dribla como Messi, não desconcerta, não coloca Boateng pra girar em 180 graus e deitar com um drible de trinta centímetros.

Mas o que ‘o cara’ vem fazendo nos últimos anos é assombrador.
Assustador.
Emendar recorde atrás de recorde; enfileirar gols, canecos, bolas de ouro, artilharias…

Ok.
Feitos notáveis.
Mas minha birra dele vinha especialmente das diversas vezes de se olhar no telão e fazer marra. De comemorar um gol dizendo que ‘ali era dele; que ele estava ali’; eu tinha para mim que ele se considerava um Semi-Deus.

Além de quê, minha alma cruzeirense me impelia a ser simpático aos italianos pela raiz e aos argentinos pelo sangue nas veias de Perfumo, de Sorín

Só que a vida ensina isso: primeiro, negar; depois, duvidar; tolerar, aceitar, se impressionar…

Cheguei ao último degrau dessa escada como um réu confesso.

Duvidei da capacidade dele quando comandado por Felipão e acompanhado pelos ótimos Deco e Luis Figo os gajos deixaram a Eurocopa de bandeja para a Grécia (!), em casa.
Ele ali era um jovem de 19 anos a quebrar um primeiro recorde do qual eu pouco me importava: o mais jovem titular finalista de todos os tempos da Euro.

Tinha comigo que ele jamais conseguiria colocar sua seleção nas costas e fazer o que fazia pelo Real Madrid; ora, na Espanha ele sempre estaria ciceroneado pelos maiores do mundo. Lá teria gente adoidado para correr por ele, para o servir.

Até a Euro 2016, quando ali ele comandou seu modesto selecionado ao título inédito.
Desbancou as poderosas Alemanha, França, Itália e Espanha e sim, colocou o fardo nas costas e o levou até o lugar mais alto.

Sorte?
Pensei que sim, mas por precaução preferi a partir dali o observar sem a trava nos olhos.

E o vendo mais de perto, quebrei em mim inúmeros pré-conceitos montados pela imagem do super-herói que se vê no telão e ajeita os cabelos gomalinamente penteados.

Ele destruiu em 16-17.
E assombrou em 17-18.

Quando seu Real Madrid parecia dar sinais de cansaço, de precisar se revitalizar, ele foi lá e arrebatou mais uma Champions League.

Vejam e se espantem (como eu o fiz):
– O cara é o maior artilheiro da história da Champions, o maior torneio de clubes do planeta;
– Cinco títulos de UCL; Cinco Bolas de Ouro da Fifa; Único a marcar em três finais de UCL;

Tem mais uns 20 recordes e não é esse o intuito.

Na Copa, ele já marcou quatro gols nos dois primeiros jogos.
Assim acaba de superar Puskas (Hungria) e se tornar, por enquanto, o segundo maior artilheiro de seleções de todos os tempos (está a 25 gols do iraniano Ali Daei).

E se recai sobre ele a pecha de jamais ter brilhado em Copas, agora vamos fazer o texto se encontrar com o cabeçalho e suas palavras retiradas do ‘Aurélio’.

Alguém duvida a que ele foi à Rússia?
Vendo seleções grandes capengando, sofrendo, alguém é capaz de dizer que ele não terá o poder de alçar sua Portugal ao título?

Vou além: olhando Messi e Salah, os dois atuais que poderiam o fazer sombra, qual deles chega perto a nível de bola hoje?

Olhem o que ele fez contra a Espanha, uma das maiores favoritas ao título.
Os espanhóis são ótimos em controle de bola, passes, deslocamento, velocidade; tem boa defesa, meio e ataque; fizeram três gols assim.
Os mesmos três que Cristiano anotou do outro lado, cada um de uma forma: de pênalti, de esquerda e de falta (magistral).

Aí vamos a Messi: um empate, um penal perdido, uma partida terrível contra a Croácia, uma saraivada de críticas; parece incapaz nesse momento de decidir a seu favor como faz o português.
Quanto ao egípcio Salah, não podemos criticar pois ele se lesionou pré-Copa e não chegou inteiro; e assim não conseguiu a façanha de levar sua modesta seleção à segunda fase do mundial.

Palmas para Ronaldo.
Outro gol, de cabeça, contra Marrocos.
Quatro gols de Portugal, todos de Ronaldo.
Mais palmas
.

Pano rápido no assunto ‘obsessão’ e vamos falar sobre os outros dois substantivos lá em cima elencados: humildade versus soberba.
Vamos compará-lo agora aos outros dois postulantes à sua coroa: Griezman e Neymar.

Ao primeiro, sobra carisma. Sempre sorrindo, trata bem a todos; mas em dois jogos ainda não foi brilhante como todos esperávamos e sua França avança a duras penas.

Ao segundo, também vindo de lesão como Salah, até agora exalou soberba. Cabelinho de cacatua, cenas estapafúrdias, rolamentos exagerados, e nenhuma bola.

Daí a gente pega os vídeos que circulam nos WhatsApps da vida e vê Ronaldo parando seu ônibus para abraçar e se deixar fotografar ao lado de uma criança.

Noutro, um jovem japonês se esforça para falar em português, língua-mãe de Cristiano; jornalistas riem e são severamente repreendidos pelo craque, que afirma solenemente que todos ali na sala deveriam aplaudir o esforço do garoto.

No mais recente, ele sai do treino e cumprimenta os gandulas que ficam boquiabertos, bestas.

É gente tratando gente como gente.
O cara é um super-herói desse esporte que a gente tanto ama mas trata aos menores como gente.
Não tem tatuagem porque doa sangue.
Pega prêmios em dinheiro e entrega integrais à caridade.

Sinceramente, pessoal: não consigo mais torcer contra.
Desisto.

Óbvio, dessa vez não vou me deixar fazer côro à moda e escolher uma seleção européia para torcer. Tenho um filho de sete anos e preciso, nessa exata hora, plantar nele o amor patriota no futebol.

Desejoso, no entanto, que nossa estrelinha Neymar beba (pelo menos por uns dias) da fonte de Ronaldo e desça do pedestal em que ele mesmo e seus mais próximos o insistem em colocar.

E, sinceramente: caso dê errado e o Brasil caia fora, espero ver Ronaldo levar mais essa.
Espero vê-lo erguer a taça no dia 15 de Julho, orgulhoso por quebrar mais um estigma.

Afinal, voltando a fita veremos que Paolo Rossi voltou de suspensão para levar a Itália à glória em 82.
Maradona levou sozinho a Argentina aos louros em 86.
Romário, em 94.
Zidane, idem na final de 98.

Por que Ronaldo não conseguiria?

Acham que ele desperdiçaria a chance de colocar seu nome enfim no mais alto rol dos eternos craques do mundo?

Pois dele, eu não duvido em mais nada.

Abraços a todos, fiquem com Deus!
Até a próxima!

por Rogério Lúcio
Twitter: @rogeriolucio77

(Foto: Goal.com)

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