Um presente do Natal

Natal de Carvalho Baroni.
Um nome que talvez soe desconhecido ou pouco lembrado dos torcedores mais recentes do Maior de Minas é o principal motivo desse que vos escreve ter escolhido o lado bom das Gerais.
Explico-me: sou cruzeirense porque meu pai me fez assim.
E o principal ídolo do meu pai é e sempre foi esse: Natal, o Diabo Loiro!

O ponta da camisa 7 era parte daquele ataque rápido e rasteiro que assombrou o Brasil em 1966, humilhando o Santos de Pelé e trazendo para as Minas Gerais o nosso primeiro título Brasileiro.
Junto a Evaldo, Tostão, Hilton Oliveira e Dirceu Lopes, Natal marcou época com a camisa azul celeste.

E eis que numa dessas obras do destino, recebi de presente o contato desse craque.
Contato feito, a conversa e a recepção foram incríveis.
De humildade sem igual, Natal me concedeu uma entrevista em forma de bate-papo, registrado palavra por palavra.
Uma agradável resenha que vocês leem agora na íntegra!

Rogério: Natal, começo dizendo que é uma grande emoção poder falar com o craque que me fez ser cruzeirense.
Natal: Eu agradeço pelas palavras porque eu estava apenas cumprindo com a minha obrigação de jogador de futebol, que é fazer o torcedor feliz.

Rogério: Sempre que o cruzeirense fala no seu nome, a primeira lembrança são os dois jogos da final da Taça Brasil de 66. Quais suas melhores recordações daqueles dois jogos? À época dava pra medir o tamanho da emoção por ter sido o autor do gol do primeiro grande título da história do Cruzeiro? E hoje, você se reconhece um herói daquele campeonato? Também, rola a história de bastidores de que no intervalo do segundo jogo, no Pacaembu e até então derrotados por 2 a 0, o vestiário cruzeirense foi invadido por dirigentes do Santos e da Federação Paulista já querendo agendar o terceiro jogo da decisão do campeonato. Isso realmente aconteceu? O que você viu? Qual foi a reação dos dirigentes, técnico e jogadores cruzeirenses?
Natal: Muita gente não acreditava que nós poderíamos marcar 9 gols em dois jogos de uma decisão, ainda mais contra o melhor time do mundo, o Santos, na época com o Pelé e vários outros jogadores muito bons. Quando nós descemos para o intervalo do 1º tempo, o Cruzeiro vencia por 5×0. Eu comentei com o Dirceu Lopes: “será que isso é verdade?” Ele respondeu: ” é verdade, mas temos que correr mais ainda para que o Santos não possa fazer nada,” Voltamos para o 2º tempo e marcamos mais um gol ainda, ficando o placar final em 6×2.
Aí fomos pra São Paulo para a decisão; quando nos entramos em campo, todos fomos ameaçados pelos jogadores do Santos, principalmente eu. Quando o placar estava em 2×0 para o Santos, fui xingado, levei tapa no rosto e assim que entramos para o vestiário, estava chovendo muito. Como não existia a vantagem de saldo de gols seria campeão o time que vencesse mais vezes em uma melhor de três partidas. No vestiário, recebemos a visita do presidente da Federação Paulista de Futebol e de alguns dirigentes do Santos para marcar o terceiro jogo, pois não acreditavam na derrota do Santos. Nos sentimos confrontados e desafiados. Resolvemos no vestiário dar o sangue para virar a partida e vencer. O Tostão perdeu um pênalti, mas logo em seguida fez um gol. Dirceu Lopes fez o segundo, empatando o jogo. O empate já daria o título ao Cruzeiro. Foi aí que eu tive a felicidade de, aos 44 minutos do 2º tempo, fazer o 3º gol. Aí saímos pro abraço, pois fomos campeões brasileiros em cima do Santos de Pelé. Sem dúvida que fui um herói, mas também o foi o Tostão, o Dirceu Lopes e todo o grupo do Cruzeiro.

Rogério: Mas você não é jogador de um lance só. Há outros inúmeros momentos marcantes na sua carreira: o gol da vitória contra o Peñarol campeão do mundo, e os diversos ótimos jogos contra o Atlético; o gol do meio do campo em 66, os dois primeiros gols no heroico empate por 3 a 3 em 67, e o duelo vencido por você contra Cincunegui em 68. O que você acha que deveria ser feito para perpetuar essas lembranças e mostrar às novas gerações de torcedores quais foram os craques que tornaram grande o Cruzeiro?
Natal: Diferentemente dos times paulistas e cariocas, os dirigentes dos times mineiros não sabem incentivar e perpetuar na memória dos clubes os feitos dos grandes jogadores, nem seus nomes, o que faz com que as gerações mais novas, tanto jogador quanto torcedor, não terem conhecimento ou memória sobre estes. Deveria haver um reconhecimento por parte dos dirigentes para com estes jogadores que fizeram com que os times se engrandecessem na história futebolística.

Rogério: Você ainda tem contato com jogadores de sua época? Quais foram os grandes amigos que você fez no futebol?
Natal: Praticamente ainda encontro com quase todos. Foram vários bons amigos, como o Raul, Evaldo, Dirceu, Piazza, Neco, Joãozinho, Wanderlei, Zé Carlos e muitos outros.

Rogério: Na sua opinião, quais foram os grande jogadores que atuaram ao seu lado? E quais foram seus melhores marcadores?
Natal: Dos que atuaram ao meu lado, cito Tostão, Dirceu, Evaldo, Raul, Piazza, Neco, Joãozinho, Palhinha.
Meus melhores marcadores foram Cincunegui (Atlético) e Marco Antônio (Fluminense e Vasco).

Rogério: O reconhecimento do torcedor e dos dirigentes ainda existe? Você é bem recebido no Cruzeiro? Os ex-atletas profissionais tem o devido respeito, sobretudo dos dirigentes atuais?
Natal: Os torcedores mais antigos e alguns torcedores jovens que se interessam pela história do clube, sim. Dos dirigentes, alguns reconhecem, outros não.

Rogério: Vamos falar do presente: você está confiante em um bom 2016 para o Cruzeiro, ou ainda está desconfiado por causa da última temporada?
Natal: Está muito cedo para poder julgar e comentar, vamos aguardar mais tempo para analisarmos o grupo e o técnico.

Rogério: Quais são seus projetos atuais?
Natal: Continuar a prestar meus serviços e meu conhecimento no futebol para as crianças em escolinhas e incentivar mais ainda eventos no esporte.

Rogério: Para encerrar, obrigado mais uma vez por dispender seu tempo a este humilde torcedor e grande fã. Deixe seu recado à Nação Azul.
Natal: Vamos continuar incentivando o grupo atual do Cruzeiro para que eles possam dar alegrias para a Nação Cruzeirense. Aproveito para a agradecer a sua atenção para comigo e mando um abraço para toda a torcida do Cruzeiro.

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