Um só tem 7 anos. O outro,32. E o futebol respira.

Era só o primeiro jogo.
O Brasil vencia a Suíça por 1 a 0 e Felipe, de 7 anos, era provocado por sua prima de quase 20.
Ela, subversiva de carteirinha, dizia que era ‘só por causa do placar de empate que houvera apostado num bolão’, entre frases (porém) do tipo ‘eu adoro ver ele bravo!’ (sic).

Minutos depois, gol da Suíça.
Uma comemoração solitária mas esfuziante dela.
E um bico na canela, dele nela.

Eu, pai zeloso mas severo, o tirei de lá.
Voltamos nós dois para casa e o papo foi de que ‘vamos ver o jogo só nós dois; a gente torce junto e tal. Mas você não pode reagir assim’.

Pode sim.
Guardadas as devidas proporções, esse é o jeito criança de externar sua raiva.
Ele só tem sete anos e respira futebol.
E ali combinamos que os próximos jogos veríamos a sós na nossa casa.

Contra a Costa Rica, sofrimento gigante.
Comemoração ao fim.
E eu me coloco na pele de um torcedor brasileiro que se aventura pelo país da Copa.
Cássio, 32 anos, um grande amigo.
Sem entender nada do idioma ou do alfabeto, tenta em inglês arranhado se comunicar com quem quer que seja para achar o caminho do Hostel.
Chapado de alegria e de cerveja russa, Cássio posta um vídeo em seu Direct dizendo ‘tou bêbado, tou perdido, nem sei como voltar, mas o Brasilzão ganhou, olê olê olê olê’.

Dou risada.
E penso o quanto eu também queria estar ali.

E penso o quanto foi bom voltar a torcer de coração e pulmões cheios pelo Brasil.
Eu que havia abandonado esse sentimento entre 2010 e 2015, por motivos próprios.
Não levantei outra bandeira.
Alguns laços de sangue me uniram por vezes à Alemanha.
Outros, de coração, à Argentina de Sorín, ou ao Uruguai de Arrascaeta.
Mas jamais torci contra o Brasil.
Apenas não torci.

Vitória boa contra a Sérvia e rituais estabelecidos.
Pai, você vai ficar no mesmo lugar do sofá. É só você se deitar bem ali que o Brasil faz gol.
Minha esposa, incrédula, ficou embasbacada com o que acabara de ouvir.
Não seria possível que o Felipe, só aos 7 anos, já se ambientara aos ritos futebolísticos que dão sorte ou azar num prélio.
E o Brasil, por causa do meu lugar no sofá, fez dois a zero.

Comemoração nossa, em casa, longe dos abutres que insistem em criticar esse ou aquele só pelo prazer de provocar.
Situação típica de 4 em 4 anos; os torcedores-urso acordam de seus invernos com comentários do tipo ‘por que o Tite não contratou fulano?’ ou ‘o cara deu uma bombada para o gol’.

Contra o México, rituais devidamente pré-estabelecidos.
Pipoca com Fondor, refri, lugares fixos no sofá e bela vitória.
Bom jogo, sem sufocos, sonho do título ainda mais vivo.

E o encontro das duas pontas da corda.

Recebo uma chama de vídeo do Cássio, apenas 15 minutos após o jogo.
Ainda sem crer, achando ser apenas um esbarrão dele no celular, completo a conexão.
Não era engano.
Era a torcida brasileira comemorando ainda dentro do estádio em Samara, e ele não falava nada.
Apenas cantava, alto, rouco. Lânguido.
Felipe estava comigo.
Ficou extasiado e começou a cantar junto!
Entrou literalmente na arquibancada, como já o fizera nas diversas vezes em que eu o levara ao nosso Mineirão.

Horas depois, refeito daquela emoção que me foi oportunizada por um amigo raro, falei com o Cássio por mensagem.
Ele disse assim: ‘eu sabia que o Felipito estaria junto a você!’.

Gente, quem é pai entende.
Quem faz pelo filho da gente, faz dez vezes por nós.

Passei a torcer ainda mais, e mais, e mais.
Pelo Brasil de Felipe.
Pelo Brasil de Cássio.

Veio a Bélgica.
Aquele dia em que nada dá certo.
Se houvessem mais quinze jogos naquela mesma intensidade, quinze vezes venceríamos.
Mas não naquela tarde.

Felipe assistiu aos minutos finais de pé naquele mesmo sofá.
Findo o jogo, ele se deitou.
Murmurou a frase de que ‘estamos fora…’.
Nem completou.
Chorou.
Copiosamente.

Lembram do pai zeloso?
Acolhi querendo chorar também.
Era real aquela dor.
Pensei no Cássio.
Adultos não desabafam assim.
Por isso que ser criança é melhor.
Adulto só se afoga em qualquer mágoa que seja.
Bebe.
Fecha a cara.

Felipe não.
Ele tem só 7 anos e uma boa conversa resolveu aquilo.

Falei sobre 31 seleções chorarem também.
Falei sobre as derrotas duras do nosso Cruzeiro, e das incontáveis alegrias que nosso times sempre nos dá.
E que na nossa alegria, sempre tem alguém a chorar do lado de lá.
Dessa vez, o choro era nosso.
Mas que deveríamos levantar a cabeça e entender o raiar de cada dia.
As oportunidades novas de cada segundo.

Ele entendeu.
Melhor: ele se resolveu muito melhor que eu!
Ou que o Cássio.

Não tive coragem de falar com meu amigo nos dias seguintes.
Não na sexta.
Nenhuma mensagem no sábado, também.
Ele também não me chamou.
Um silêncio velado daqueles que diz tudo.

Hoje cedo criei coragem e mandei um ‘Opa. Como estão as coisas aí?’.
Cássio me disse que a derrota mudou tudo: os planos, o clima…
Falei pra ele sobre o choro do Felipe.
Meu amigo resumiu numa frase que encerra a cronologia:

– Que merda! Mas que irado! Ele respira futebol! Como nós..

Abraços a todos, saudações celestes, fiquem com Deus!
Até a próxima!

por Rogério Lúcio
Twitter: @rogeriolucio77

(Foto: Mauro Pimentel – AFP)

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